Quando foi aprovado pelo Senado, o texto final do Estatuto da Igualdade Racial deixou de contemplar questões como as cotas em universidades públicas reservadas aos afrodescendentes. A ausência de parâmetros na nova norma criou uma incógnita sobre o tema e reacendeu a polêmica a respeito. No entanto, alguns estudos e relatórios produzidos cinco anos após o início das cotas, já apontavam o caráter positivo e o bom aproveitamento de grande parte dos beneficiados desse sistema. O rendimento destes alunos, em geral, supera o dos demais. Gilberto da Silva, Júlio César, Allyne Andrade, Juliana Franco e Cláudia Maísa são alguns desses estudantes que aproveitaram as oportunidades, cresceram como profissionais e, principalmente, como cidadãos conscientes.
Gilberto da Silva Guizelin, de 24 anos, descobriu que a Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná - distante 200 km de sua cidade natal, Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo - tinha instituído o sistema de cotas. Foi à oportunidade que ele viu para, finalmente, realizar o sonho de cursar uma faculdade e deixar para trás o destino quase certo de ir trabalhar no corte de cana, como a maioria dos jovens de sua cidade. "Venho de uma família humilde. Meus pais já eram separados e, mesmo ganhando apenas salário-mínimo como aposentado, meu pai me ajudou nos estudos, custeando o cursinho, enquanto isso minha mãe me mantinha no curso de inglês. Se eu tivesse que pagar, nunca poderia fazer um curso universitário. Aproveitei a minha condição de estudante de escola pública e o fato de ser negro para pleitear a vaga como cotista", conta. Gilberto sonhava com o curso de Relações Internacionais.
"Alguns pensam ser um privilégio, mas eu acredito que seja apenas uma forma de tentar corrigir um erre histórico, que excluiu o negro e os indígenas do ensino acadêmico”.
Tentou por dois anos no vestibular da UNESP, mas sem êxito. Com a chance das cotas na UEL foi diferente... Em 2005, entrou no curso de História e se formou em 2008. Na formatura, Gilberto obteve outras grandes alegrias. A dedicação durante a faculdade lhe rendeu uma premiação em dinheiro por ter alcançado a maior média de notas (9,527 pontos) da instituição. Recebeu da Caixa Econômica Federal a quantia de R$ 10 mil pelo ótimo desempenho acadêmico (já planejando aplicar o dinheiro numa pós-graduação).
No ano seguinte, o então historiador formado teve seu alto desempenho como aluno homenageada pela Câmara Municipal de Londrina, que o laureou com o Diploma de Reconhecimento Público. "Existe muita discussão em torno das cotas. Alguns pensam ser um privilégio, mas eu acredito que seja apenas uma forma de tentar corrigir um erro histórico, que excluiu os negros e os indígenas do ensino acadêmico", analisa Gilberto.
Mas não basta uma vaga, é preciso muito incentivo. Ele próprio se cercou de todo o apoio possível. Descobriu, por exemplo, a Afra atitude, que oferece suporte aos alunos cotistas em seus projetos de pesquisa. Hoje, Gilberto segue fazendo mestrado em História Social, agora como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), condição que exige dedicação integral à pesquisa. O tema escolhido - Projeções Atlântico-Africana do Império Brasileiro - o reaproximou de seu sonho de estudar Relações Internacionais, e proporcionou a ele novas revelações acerca de suas raízes como cidadão afrodescendente.
Crescimento político e racial
A advogada Allyne Andrade e Silva não poderia imaginar quando começou a cursar Direito na UERJ, em 2005, que os estudos a levariam tão longe. Um ano antes de terminar o curso de graduação - concluído em dezembro de 2009 - ela fez intercâmbio internacional em Kobe, no Japão, como bolsista de uma associação privada japonesa. A concorrência foi grande e, ao fim do processo seletivo, 14 estudantes de várias regiões do país competiam por três vagas. Allyne conquistou uma delas e foi para a terra do sol nascente estudar Relações Internacionais e Direito Internacional. "Além do curso específico, aprendi japonês e pude aprimorar o inglês. Amadureci muito também como pessoa", avalia.
Já formada, passou por um processo seletivo rigoroso para conseguir uma bolsa de estudos oferecida pelo Ministério das Relações Exteriores e CNPq a afros descentes que querem atuar na área diplomática. "Não é um programa de cotas, como o que me permitiu entrar na faculdade, mas uma bolsa de R$ 25.000,00 anuais, que me permite fazer o caro curso preparatório para a prova de diplomacia", revela. O Brasil tem pouquíssimos diplomatas negros, o que acaba gerando o questionamento de vários países, principalmente os africanos, sobre nossa representação. Bolsas como a que Allyne conquistou são importante incentivo para que esta realidade comece a mudar. "Ser estudante de cotas teve grande impacto em meu crescimento político e consciência racial. Eu já fazia parte de movimentos sociais, mas hoje faço uma leitura muito mais ampla desse papel". Para a advogada, mais que as ações afirmativas que estimulam a entrada de negros e dos menos favorecidos em cursos universitários, os cursos pré-vestibulares comunitários têm grande relevância, como a Educafro, em que ela atuou como coordenadora. Ser a primeira pessoa da família ou da comunidade a entrar na faculdade também traz um valor simbólico, pois serve de exemplo e estimula outras pessoas a trilharem caminhos semelhantes. "A universidade também ganha, pois a diversidade racial e social muda dinamiza e enriquece a produção do saber universitário", conclui.
Quando Cláudia Maísa Pinheiro da Boa Morte optou pelo curso de Relações Públicas, não tinha muita certeza de como seria sua atuação profissional no futuro. Foi a partir do contato com as disciplinas e da prática obtida em estágios que a jovem definiu seu caminho. "Fiquei cerca de um ano estagiando na Secretaria de Promoção da Igualdade da Bahia (Sepromi), que me permitiu conhecer de perto as políticas sociais e escolher fazer um trabalho voltado para as questões sociais. A secretaria é relativamente nova e atua com um número enxuto de funcionários, no entanto, realiza um trabalho enorme, de grande valor. Essa experiência me proporcionou principalmente crescimento pessoal", acredita Cláudia, de 23 anos. Em 2005, ela iniciou os estudos na Universidade Estadual da Bahia (Uneb) - a primeira a implantar o sistema de cotas no país.
"É uma forma de ocuparmos um espaço que é nosso por direito. essa experiência me proporcionou principalmente crescimento pessoal"
Ainda assim, a relações públicas lamenta o fato de a maioria dos estudantes, inclusive muitos cotistas, não se aprofundarem no debate acerca da discriminação racial e das políticas afirmativas. "As pessoas tinham medo de se manifestar e, quando era aberto espaço para esse tipo de discussão, se omitiam alegando ser perda de tempo. Eu aproveitei oportunidades como o congresso de Pesquisadores negros e a conferência de Intelectuais da África e da diáspora para obter mais clareza sobre o assunto", diz. Sua opinião hoje é de que as cotas não são oportunidade nem privilégio oferecidos aos negros e egressos do ensino público. "É uma forma de ocuparmos um espaço que é nosso por direito", conclui. Hoje Cláudia Maísa trabalha como consultora em um programa da Federação das Indústrias da Bahia (FIEB), voltado à estruturação de sindicatos. Sente-se entusiasmada com sua missão e tem dois objetivos bem definidos a cumprir: investir na qualificação com um curso de pós- graduação e ajudar a ampliar a discussão na sociedade sobre a questão racial.
Ele se define como um artista multimídia. Desde a adolescência, Júlio césar dos Anjos toca em uma banda de rock, trabalha com textos literários e produz um fanzine underground. Além disso, recentemente começou a se interessar pela produção de cinema digital, recurso que vem democratizando o acesso à sétima arte. Sem as cotas, julga que seria difícil ter conseguido tornar-se universitário. O fato de ter ingressado no curso de Artes da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ) começa a produzir mudanças em sua perspectiva de vida. “Eu havia cogitado cursar Letras ou história, mas um amigo me convenceu de que com o curso de Artes eu poderia ter uma bagagem mais ampla para minhas pretensões”.
“Estou me informando a respeito e, mesmo antes de formado, existe a possibilidade de dar aulas ou coordenar oficinas em ONGs da região onde moro”, conta. Casado há sete anos, sentindo-se maduro aos 34 anos, Júlio não acredita que a Universidade forme o artista, mas sente-se ávido pelo saber que reconhece já estar adquirindo no ambiente acadêmico e acredita que essa instrução lhe dê outros referenciais importantes para seu desenvolvimento artístico e também pessoal. Atualmente, ele participa de um projeto de teatro da própria universidade e recebe uma bolsa auxílio que o tem ajudado a compor a renda familiar (Júlio está desempregado) com o salário da esposa. Com a formação acadêmica e muitas perspectivas, o próximo grande objetivo do casal, depois da estabilidade financeira, é providenciar um herdeiro.